Terça-feira, Outubro 30, 2007

A hipocrisia do costume

Um dos artistas participantes da Bienal Costarricense de Artes Visuales (Bienarte) 2007, Guillermo Habacuc Vargas, cometeu a barbaridade de prender um cão num canto de uma das salas da Galeria e, deixa-lo, simplesmente, morrer ali de fome e sede. Condenável, a todos os níveis, esta atitude de Vargas fez estalar uma polémica mundial e existe já uma petição on-line (aqui) contra a repetição desta manifestação artística de Vargas na Bienal Centroamericana Hondura 2008, a qual já assinei. É de facto, uma atitude inqualificável que merece toda a censura.
No entanto, a tal polémica que explode, sobretudo, na Internet, traz consigo uma outra característica que a sociedade, dita desenvolvida, carrega em si mesma. É o paradoxo do distanciamento-humanizante. Isto é, assim que somos baleados (antes pela comunicação social, agora mais pela Internet) com uma notícia carregada de sensacionalismo, sobre um caso concreto com violência ou dramatismo q.b. (como foi o caso recente de Maddie) e suficientemente distante do nosso raio de vivência, vem-nos à flor da pele todo o nosso humanismo e solidariedade perante aqueles seres concretos que têm uma dor concreta resultante de um drama concreto. Logo desponta um histerismo colectivo de estupefacção perante tamanha atrocidade. É compreensível, na qualidade de seres humanos que somos, e, portanto, emocionais. Mas é hipócrita. Completamente hipócrita. Não é necessário falar dos inúmeros países africanos onde morrem, tal como aquele cão, milhões de pessoas que o mundo desenvolvido mantém acorrentadas a uma pobreza extrema. Não é preciso falar dos milhares de vítimas que algumas pessoas do mundo ocidental sacrificam (mortalmente ou num sofrimento perpétuo inimaginável) em guerras por esse mundo fora, na luta pela emersão económica dos territórios políticos. Não é preciso falar do abate de recém-nascidos que determinados líderes implementam em determinados países como estratégia pelo controlo de natalidade. Não, não é preciso. Basta percorrerem a Baixa durante a noite. Tentem não tropeçar nos sem-abrigo, que amarrados, por uma sociedade hipócrita, ao cobertor celestial, ali morrem gradualmente de fome, sede e frio. De cada vez que me deparo com um deles, que é um como eu, tenho vergonha de ter repetido, por mero prazer, a feijoada de marisco na refeição imediatamente anterior. Tenho muita vergonha de, na tarde anterior, ter procurado, criteriosamente, a camisa que melhor combinava com as calças. Tenho vergonha, mas continuo a fazê-lo, diariamente, nos mesmos dias em que procuro não cruzar o meu olhar com um daqueles cobertores estendidos numa soleira de uma rua da Baixa. Tal como aquele cão, estas pessoas estão presas num canto do mundo. A diferença é que todos sabemos quem lá amarrou o cão, e vamos todos aproveitar para crucificar o responsável, a bem da tranquilidade da nossa consciência humanizante. Pelo contrário, ninguém sabe quem prendeu estes seres humanos, que são iguais a mim, a uma morte lenta e mesmo à frente dos nossos olhos.
Não estarei eu, também, a cometer, numa rua que ninguém quer ver, a mesma barbárie que Vargas praticou numa galeria onde todos fomos morder?

3 comentários:

Psyche disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Psyche disse...

Concordo, em parte, contigo. É condenável, sim, mas o acto em si não merece a importancia que se lhe deu. Tirando o lado negativo do cão ter morrido, claro, penso que não é isso que incomodou o mundo, mas o facto de se tocar na ferida de toda uma sociedade que não é mais que um Vargas todos os dias, a toda a hora, quando calmamente passeia pelas ruas. Não querendo alongar-me por outros caminhos, que importancia se deu a um ser humano que foi deixado morrer, pendurado pelos pés e braços em Orjais? Alguém se manifestou? alguém tirou uma conclusão? não. a noticia ja morreu, tal como ele.
o acto em si pode e deve ser condenavel, mas o que esta implicito nele é o que realmente deve ser condenavel. a preocupação com o cão é meramente uma máscara, até porque ninguém o ajudou, o que tem de ser condenavel, e isso sim, incomoda, é uma sociedade que não olha senão o seu umbigo.

Bom post.

Anónimo disse...

Com a diferença que em Orjais era um ser racional que poderia se expressar e reclamar, coisa que o pobre cão não pode fazer. Além do que, um animal de rua só busca alimento e abrigo.
Não sei o que o gajo de Orjais fez, mas seja lá qual for o motivo, deve ter tido a chance de se defender e expressar o que sentia antes de morrer, coisa que o pobre animal não pode e nem fez nada para merecer esta tortura.