quinta-feira, agosto 18, 2005

Há momentos na vida em que parece que tudo funciona ao contrário...

Hoje ia escrever sobre outro assunto bem mais agradável, mas deixo para mais tarde.

Ontem à noite recebi uma mensagem escrita que dizia que o Irmão Roger, fundador da comunidade de Taizé, havia sido assassinado.
Fiquei sem saber o que pensar. Acho que dentro de mim havia muito choque. Mas sobretudo desilusão...

Há alturas em que parece que o mundo funciona ao contrário... que nada é como devia ser... e nada é como queríamos que fosse.

Para quem não sabe, o Irmão Roger, quando era apenas um jovem com vinte e cinco anos, resolveu que queria que a sua vida seguisse um rumo diferente. Vindo de famílias abastadas, não queria ser advogado ou algo do género. Queria viver para os outros.
Tendo pouco mais que a minha idade, resolve-se a viajar de sua casa na Suíça para a França com uma bicicleta, decidido a fundar uma pequena comunidade onde pudesse dedicar a sua vida aos outros. Passou em várias aldeias. Umas não tinham as condições que queria, noutras não conseguiu comprar uma casa.
Chegou à pequena aldeia de Taizé no sul da França. Comprou uma casa velha.
Entretanto, a segunda guerra mundial desenrola-se e ele resolve receber refugiados na sua casa.
É várias vezes visitado pela Gestapo. Algumas vezes é preso e interrogado.

A gerra termina. O Irmão Roger continua sempre na pequena aldeia. Algumas pessoas tinham-se juntado a ele e formavam uma pequena comunidade ecuménica de irmãos... monges. Partilhavam a vida em absoluto. Viviam unicamente do seu trabalho. Trabalhavam a terra, faziam artesanato e outros trabalhos.
Nos anos setenta, começam a chegar alguns jovens que, durante alguns dias, queriam partilhar um pouco da vida daquela pequena comunidade. Sempre aberta, a comunidade acolhe-os.
O tempo foi passando. No final do século, a comunidade tem cerca de cem irmãos. Nos meses de Verão recebe, em algumas semanas, cerca de cinco mil a sete mil jovens de todo o mundo que viajam quilómetros para passarem sete dias a viver em comunhão.
Para responder a este anseio de tantos milhares de jovens, a comunidade organiza-se para preparar encontros de uma semana para estes jovens. Os jovens chegam num domingo e partem no domingo seguinte. Todos os domingos alguns partem e outros chegam.
A estes, a comunidade pede apenas um pequeno contributo para despesas em dinheiro, que depende do nivel de vida de cada país de origem, e pede ainda que contribuam com o seu trabalho nas várias tarefas.

Olhando para trás, vê-se um homem que decidiu que a sua vida tinha que ser vivida para os outros. Olhando para trás vê-se que o querer de uma só pessoa fez com que milhares, provavelmente milhões, de jovens em todo o mundo escolhessem experimentar viver pelo menos uma semana das suas vidas em comunhão, provando que todos podíamos ser iguais, falar de tudo independentemente da língua, olhar para os outros, viver rodeado de milhares de pessoas e todos se encontrarem como se se conhecessem.

No final de cada ano, numa capital europeia, este homem conseguiu que se encontrassem centenas de milhares de jovens... numa simplicidade onde basta um chão, uma viola e vozes felizes.

Falta dizer que esta comunidade não aceita donativos e entrega todas as heranças de família dos seus monges a pessoas necessitadas. Vive apenas do trabalho dos monges. É uma comunidade ecuménica, ou seja, não é ligada a qualquer religião.

Este homem não fez mais que provar que quando queremos e temos muita vontade, podemos mudar o mundo. Literalmente.
Este homem uniu jovens de nações que se combatem. Uniu jovens de todo o mundo. Ajudou pessoas a viverem felizes. Provou que se olharmos um bocadinho para os outros, conseguimos crescer mais.

O Irmão Roger tinha noventa anos. Foi ontem assassinado em Taizé. Na pequena aldeia que ele transformou. Rodeado de cerca de dois mil e quinhentos jovens. Várias crianças à sua volta como era costume. Uma mulher romena levantou-se e apunhalou-o três vezes, uma delas cortando-lhe a garganta.

Dos lugares do mundo que já tive oportunidade de visitar, Taizé é aquele que está mais perto da perfeição e onde encontrei mais felicidade nas pessoas.

No entanto, o mundo gira duma forma estranha.
Aqueles que nos fazem andar para a frente, que fazem do mundo um lugar melhor, são aqueles que são penalizados desta forma...

Há momentos na vida em que parece que tudo funciona ao contrário...

JG

6 comentários:

Anónimo disse...

Também soube da notícia através de uma msg, mas apenas dizia que tinha falecido. Mais tarde, telefonaram-me a dizer que tinha sido assassinado. Também foi um choque. Conhecia-o e arrepiei-me de pensar que alguém tinha feito mal a uma pessoa inocente.
Sinto-me triste e lembro-me das palavras que escrevi quando voltei de taizé: "...Resta-me agradecer ao Irmão Roger por ser um "velhinho" lindo, simpático e fantástico e por se ter empenhado na construção e crescimento daquela comunidade..."

Não posso terminar sem antes dizer que Taizé é um lugar fantástico onde nos sentimos muito bem. É um local onde em tempos "...Consegui atingir uma Paz de Espírito como nunca tinha atingido e foi sensacional sentir como as coisas más que nos abordam todos os dias, (a maldade; as injustiças; os bens materiais), deixaram de ter qualquer significado na minha vida."

É mesmo verdade que "há momentos na vida em que parece que tudo funciona ao contrário..."

Marta disse...

Eu soube da notícia através do noticiário da TSF... apesar de nunca ter visitado - com muita pena minha e na esperança de um dia o fazer - Taizé, fiquei revoltada e, sobretudo, triste com a notícia...
O João explicou, melhor do que eu o poderia fazer, quem foi o irmão Roger e a sua importância para os católicos e sobretudo para os jovens - "Este homem não fez mais que provar que quando queremos e temos muita vontade, podemos mudar o mundo. Literalmente." Esta frase dita pelo João diz tudo.
O mundo ficou mais triste. Mais pobre. E, de facto, "há momentos na vida em que parece que tudo funciona ao contrário..."

Petrucci disse...

=(

thirdeye disse...

É um momento triste para a humanidade.

monstro disse...

Acrescento que o espírito Humano tem limites por demais desconhecidos e uma imensa capacidade para dizer que "Está tudo bem!".
Às portas da morte, a própria mente dirá que "Não faz mal morrer!" ou "Talvez seja melhor morrer...". Quem lá esteve, com consciência, concordará comigo.

t!t@ disse...

só lá estive dois dias...de passagem...não deu para sentir em plenitude o que é Taizé...e ainda assim tenho uma vontade enorme de lá voltar...apesar da comida...=)
No entanto sei q, por tudo o q é e simboliza,pessoas cm tu, João, vão continuar a "viver" Taizé...E se nestes momentos se pode dizer alguma coisa...simplesmente agradeço a Deus por tudo o que fez através do Irmão Roger, e por todos os jovens que dão sentido áquela comunidade...Obrigada...