quarta-feira, junho 29, 2005

Portugal fez tudo errado mas... desenracou-se

Eu vou colocar aqui um texto grande como o o nariz do Júlio Esidro (humm.. minto... não há nada tão grande como...) mas é interessantíssimo e vale a pena ser lido, acredite-se.
É, ao mesmo tempo, um hino e um vómito a Portugal. É a afirmação final de que somos muito grandes, queiramos ou não. O português já nasce assim.

"Portugal fez tudo errado, mas correu tudo bem.

João César das Neves

Esta é a conclusão de um relatório internacional recente sobre o desenvolvimento português.

Havia até agora no mundo países desenvolvidos, subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Mas acabou de ser criada uma nova categoria: os países que não deveriam ser desenvolvidos. Trata-se de regiões que fizeram tudo o que podiam para estragar o seu processo de desenvolvimento e... falharam.

Hoje são países industrializados e modernos, mas por engano. Segundo a fundação europeia que criou esta nova classificação, no estudo a que o DN teve acesso, este grupo de países especiais é muito pequeno. Alias, tem mesmo um só elemento: Portugal.

A Fundação Richard Zwentzerg (FRZ), iniciou há uns meses um grande trabalho sobre a estratégia económica de longo prazo. Tomando a evolução global da segunda metade do século XX, os cientistas da FRZ procuraram isolar as razões que motivavam os grandes falhanços no progresso. O estudo, naturalmente, pensava centrar-se nos países em decadência. Mas, para grande surpresa dos investigadores, os mais altos índices de aselhice económica foram detectados em Portugal, um dos países que tinham também uma das mais elevadas dinâmicas de progresso.

Desconcertados, acabam de publicar, à margem da cimeira de Lisboa, os seus resultados num pequeno relatório bem eloquente, intitulado:

“O País Que Não Devia Ser Desenvolvido”

- O Sucesso Inesperado dos Incríveis Erros Económicos Portugueses." Num primeiro capítulo, o relatório documenta o notável comportamento da economia portuguesa no último meio século. De 1950 a 2000, o nosso produto aumentou quase nove vezes, com uma taxa de crescimento anual sustentada de 4,5 por cento durante os longos 50 anos. Esse crescimento aproximou-nos decisivamente do nível dos países ricos. Em 1950, o produto de Portugal tinha uma posição a cerca de 35 por cento do valor médio das regiões desenvolvidas. Hoje ultrapassa o dobro desse nível, estando acima dos 70 por cento, apesar do forte crescimento que essas economias também registaram no período. Na generalidade dos outros indicadores de bem-estar, a evolução portuguesa foi também notável.

Temos mais médicos por habitante que muitos países ricos. A mortalidade infantil caiu de quase 90 por mil, em 1960, para menos de sete por mil agora. A taxa de analfabetismo reduziu-se de 40 por cento em 1950 para dez por cento.

Actualmente a esperança de vida ao nascer dos portugueses aumentou 18 anos no mesmo período. O relatório refere que esta evolução é uma das mais impressionantes, sustentadas e sólidas do século XX. Ela só foi ultrapassada por um punhado de países que, para mais, estão agora alguns deles em graves dificuldades no Extremo Oriente. Portugal, pelo contrário, é membro activo e empenhado da União Europeia, com grande estabilidade democrática e solidez institucional. Segundo a FRZ, o nosso país tem um dos processos de desenvolvimento mais bem sucedidos no mundo actual. Mas, quando se olha para a estratégia económica portuguesa, tudo parece ser ao contrário do que deveria ser. Segundo a Fundação, Portugal, com as políticas e orientações que seguiu nas últimas décadas, deveria agora estar na miséria. O nosso país não pode ser desenvolvido. Quais são os factores que, segundo os especialistas, criam um desenvolvimento equilibrado e saudável? Um dos mais importantes é, sem dúvida, a educação.

Ora Portugal tem, segundo o relatório, um sistema educativo horrível e que tem piorado com o tempo. O nível de formação dos portugueses é ridículo quando comparado com qualquer outro país sério. As crianças portuguesas revelam níveis de conhecimentos semelhante às de países miseráveis. Há falta gritante de quadros qualificados. É evidente que, com educação como esta, Portugal não pode ter tido o desenvolvimento que teve. Um outro elemento muito referido nas análises é a liberdade económica e a estabilidade institucional. Portugal tem, tradicionalmente, um dos sectores públicos mais paternalista, interventor e instável do mundo, segundo a FRZ. Desde o “condicionamento industrial” salazarista às negociações com grupos económicos actuais, as empresas portuguesas vivem num clima de intensa discricionariedade, manipulação, burocracia e clientelismo. O sistema fiscal português é injusto, paralisante e está em crescimento explosivo. A regulamentação económica é arbitrária, omnipresente e bloqueante.

É óbvio que, com autoridades económicas deste calibre, diz o relatório, o crescimento português tinha de estar irremediavelmente condenado desde o início. O estudo da Fundação continua o rol de aselhices, deficiências e incapacidades da nossa economia. Da falta de sentido de mercado dos empresários e gestores à reduzida integração externa das empresas; da paralisia do sistema judicial à inoperância financeira; do sistema arcaico de distribuição à ausência de investigação em tecnologias. Em todos estes casos, e em muitos outros, a conclusão óbvia é sempre a mesma: Portugal não pode ser um país em forte desenvolvimento.

Os cientistas da Fundação não escondem a sua perplexidade. Citando as próprias palavras do texto: "Como conseguiu Portugal, no meio de tanta asneira, tolice e desperdício, um tal nível de desenvolvimento? A resposta, simples, é que ninguém sabe.

Há anos que os intelectuais portugueses têm dito que o País está a ir por mau caminho. E estão carregados de razão. Só que, todos os anos, o País cresce mais um bocadinho. "A única explicação adiantada pelo texto, mas que não é satisfatória, é a incrível capacidade de improvisação, engenho e “desenrascanço” do povo português. “No meio de condições que, para qualquer outra sociedade, criariam o desastre, os portugueses conseguem desembrulhar-se de forma incrível e inexplicável.” O texto termina dizendo:
“O que este povo não faria se tivesse uma estratégia certa?”.

Fica ainda a referência electrónica a uma página internacional que determina o famoso "Desenrascanso" Português. Frenéticos, estes Portugueses.
http://en.wikipedia.org/wiki/Desenrascanso

PS.: Beijinhos e abraços... e para os que estão de férias... não se esqueçam de mandar muitos mails... de-porcelana:).

Fui.

8 comentários:

Marta disse...

Eu vou ler isto... não sei quando, mas vou...

Petrucci disse...

eu li e fiquei...bem, como posso dizer isto...Portugal foi dono de meio mundo e agora meio mundo é dono de Portugal e ainda nos axamos os maiores! pena tenho que o País se esteja e encaminhar para mais uma gerra civil...por este andar, nem o desenrrasco portugues, tão conhecido internacionalmente, nos vais safar :s

isto há cada coisa

:P

João Gomes disse...

Eu também li... a última frase deixou-me a pensar...

Um professor uma vez disse-me que havia muitas pessoas que vinham de universidades dos países nórdicos fazerem investigações, mestrados e essas coisas aqui em Portugal para tentarem adquirir essa nova qualidade da expontaneidade, da criatividade, desse tal desenrascanso...

Isso só prova que os dons são distrubiuídos pelas pessoas e dificilmente se consegue ter todos os dons... e assim essa última frase que me impressionou, fica explicada....

:D

thirdeye disse...

Quem não leu, não sabe o que perdeu.
Depois de ter lido este texto, não sei muito bem o que pensar...
Mas quando souber digo.

Daniela S. disse...

que isto é um testamento.. já todos nós demos conta..
Mas será que me calhou alguma parte da herança??... :(

João Gomes disse...

Oh daniela... agora não...

lol

Não resisti...

Daniela S. disse...

:(

alchemist disse...

Estou um bocado como o thirdeye. Sem saber o que dizer. Mas faz sentido... Se virmos as difculdades por que passáos ao longo da história, só esta capacidade de desenrascanço nos poderia ter valido. Caso cpntrário, seriamos um pais de terceiro mundo antes destes existirem...